Sunday, June 05, 2005

6 textos em seqüência

I
A factualidade do consenso


Imaginemos uma criança. Com a mão na fronte e olhar ao céu ela acompanha o sol. Atenta, toma pontos como referência e deduz ao fim do dia que o grande astro seguramente gira em torno da terra.
“Um engano pueril�, diríamos, e talvez ao fim do riso retratasse qualquer um mais cultamente: “Equívoco comum que a maturação e aprofundamento das noções infantes desse pequeno homem hão de retificar�.
A verdade seduz e à ela urge a factualidade do consenso, ou seja, embora a criança tenha observado, medido e chegado à uma conclusão – que nos parâmetros da instrução e instrumentos que possui é irrefutável – o erro se faz evidente e pode ser revelado com estudos científicos simplórios e provas extraídas a partir de testes com instrumentos adequados para tal.
Segregamos a inocência entre o cômico e a comiseração. O “não-saber� alheio suscita reações adversas nos que carregam punhados de verdades consigo e fazem de suas vidas ofício de semear as árvores do seu conhecimento, tratá-las as raízes e garantir para os seus, os frutos de todo esse esforço cognitivo.
Essa intolerância é compulsiva e quer espaço para crescer. No instante em que as verdade adquirem um semblante imutável, incólume e irreplegível, certo e errado se põem em opostos, as certezas passam a ser triunfos e o diferente é, na maioria dos casos, subjugado. A noção do saber a verdade nos retira o remorso das ações mais absurdas uma vez que o justo e o injusto, o bem e o mal, o louvável e o reprovável são confeccionados no íntimo de nossas necessidades e vontade de viver. Qualquer um ou coisa que intervenha contra esse desejo será sempre e categoricamente taxado de mau, injusto e errado.
Dividimos, todos nós, a mesma ilusão da criança sob o céu e o espetáculo do fazer-se dia e noite. Enquanto nenhuma instrução ou instrumento possa pôr em xeque uma certeza de nossa propriedade, ela será verdadeira, será apreciada e defendida.
As convicções são, talvez, as maiores fortalezas de um homem e abandoná-las seria demasiado doloroso, perigoso e improvável.


II
No encalço das nossas perspectivas

À dimensão de tudo nos relacionamos com os objetos da vida no encalço das nossas perspectivas. Ao imenso e ao minúsculo atribuímos sentido maior que apenas de parâmetros quando nos pomos como objeto central de observação e categorização das coisas.
Arrogamo-nos o mundo quando o demos nome e o figuramos geometricamente qual imensos traços, arcos e circunferências. Enquanto de posse da palavra, qualificamos tudo e, em suposições várias, tememos e tentamos domar o desconhecido.
Imaginemos se à todas as coisas, por mais semelhantes que fossem, devêssemos olhar como novas e decifrá-las em sua unidade e essência. Como seria ver nos mínimos detalhes cada árvore, cada monte ao longe, cada silhueta de tudo presente no caminho por qual passamos todos os dias?
Projetamos noções simplificadas e sólidas de tudo; algo como triângulos e trapézios para os montes distantes e cilindros tortuosos para os troncos de árvores. Se traçam um risco levemente curvo para baixo e acima dele dois pequenos pontos somos capazes de enxergar ali um rosto e um riso, mesmo não havendo a mínima semelhança.
A simplificação e categorização de tudo se fez necessário para que compreendêssemos o mundo e seu funcionamento, mas para isso nos criou ilusões óticas, táteis e cognitivas. O domínio (da palavra, da verdade e das coisas) é a ilusão do homem que mais o apraz, pois desfaz em brisa os tufões do acaso nas suas ponderações e, consentidas suas convicções, o torna confiante do seu julgo.
É, pois, realidade o laço tênue e firme entre a afirmação e o consentimento. E a mentira? Interpretamos as coisas, deduzimos, aprofundamos as noções de lógica e causalidade, mas embora o real absoluto esteja em nossa volta, o vemos, sentimos e ouvimos como somos feitos para tal e não como ele de fato é constituído.
Figura-se a mentira na sede do conhecimento. A sua forma tem os aspectos da curiosidade sequiosa e a profundidade do receio mais esconso. A busca pela verdade é de fato a deturpação da essência de tudo. Fito o mundo e ele já se torna outra coisa.
Seria então eloqüente afirmar que a mentira se faz em cada olhar e palavra que lançamos ao longe? E o que já é a mentira se as verdades, sob tal perspectiva, também a são?



III
Verdades salgadas

Sem antagonismos e devaneios, a mentira é essencial para a nossa forma de vida e formação devida. A verdade, embora trazida ao pedestal da honra e exibida por todas as doutrinas, organizações e indivíduos como atestado de dignidade e pureza, constitui-se de tudo que consome e corrompe a natureza humana ao mesmo tempo que a revela.
Somente se compreendidos as convicções, noções e julgamentos que em nós se firmaram, ensinados e repassados ao longo do tempo, como abstrações (não certezas) de tudo que nos cerca, e adaptação e conveniência para vivermos em sociedade num mundo indecifrável no qual apenas inventamos verdades, mas nunca as acharemos, poderíamos reaver e reformular o pensamento e as diretrizes das nossas vontades e deixar para trás, de uma vez por todas, todos os aspectos nocivos das ideologias e organizações humanas que traem ainda o bolor da idade média e/ou o alor ganancioso e infrene da era da economia globalizada.
Uma nova organização política, econômica e social seria fomentada no rastro da nova condição humana e os instrumentos para tal transmutação já existem. Lembremos da criança que fez sua verdade quanto ao dia e noite e a levou para casa com cuidado. Ao perceber que não compartilhavam do seu deslumbramento, a criança relutou mas cedeu. Por quê? Ela teve acesso a novos instrumentos e instruções, e com isso agarrou sua nova verdade com mais firmeza ainda.
Os instrumentos estão por toda parte. O mundo está mais rápido, a tecnologia da interatividade nos aproxima numa velocidade maior do que nos deixamos aceitar nossas diferenças. Não há mais delimitações de espaço no contexto virtual-universal e troca de informações e dados nas formas possíveis atualmente (áudio, vídeo, texto etc) já estão obrigando uma reestruturação massiva de certos poderes e organizações econômicas. Logo se fará necessário mudanças generalizadas no exercício jurídico e político de repartições do mundo inteiro e toda a realidade social acompanhará essa onda de transformações.
Não se pode deixar essa onda passar e não levar-nos à praia do novo mundo. Quanto tempo e quantas vezes ainda veremos na crista das ondas a espumante orgia dos interesses nocivos ao bem comum encontrar a terra firme e ficaremos agarrados a destroços de esperanças e ilusões, com sede e prestes a nos afogarmos em verdades tão salgadas?
Instrução. Nos falta essa palavra e o que ela significa. Os meios de comunicação em massa, dotados de capacidade enorme de difusão, nos oferecem o conveniente, o estático, o reflexo de nós mesmos. Reprime o novo ao passo que o estranhamos. As formas de interação virtual e a aglutinação desta com a imprensa formam um híbrido de informação e transformação para o qual não podemos virar as costas.
A expressão anuncia-se não mais unilateral. A produção de conteúdo se desvencilha rapidamente das grandes editoras, produtoras e jornais. É hora de repensar a estrutura social e fundar os novos alicerces do saber.


IV
Os parágrafos da história

Devemos mesmo dar vazão a esses idealismos fugidios com sintomas de loucura que nos anunciam o bem comum e o triunfo da prosperidade ou hão de ser os nossos mínimos pensamentos, para sempre, apenas abstrações horrendas de uma realidade que constatamos não mudar nunca?
Que força latente constitui os sonhos e a aspiração humana? Em que circunstâncias se define a inspirada luta, explodem e eclodem as transformações? Como ensaiamos os parágrafos da história?
Quando as situações conspiram e suscitam em espasmos as revoluções, nascem heróis e vilões que figuram sua época e perduram para sempre nas páginas dos livros e no imaginário comum. A figura do herói é uma exigência categórica nos processos de transformação.
A personificação da luta e da bravura contra determinado mal nos enche de fascínio e arremete à nossa consciência primitiva, quando o mundo e os movimentos ao redor nos eram compreendidos como derivados de nossas ações diretas e qualquer evento aparentemente sem um causador direto nos suscitava incontrolável pavor e desassossego.
A idéia de não se ter o controle das coisas provoca o indivíduo profunda e intimamente. Toda a construção do conhecimento baseia-se na questão do domínio e os heróis do passado nada mais são que os legitimados representantes que sintetizam certo período transitório e que somente sob determinadas e especiais circunstâncias são gerados e trazidos ao pedestal da glória e reconhecimento.
Que história a nossa atualidade vai impelir futuro afora? Que heróis vão surgir da ânsia por mudanças e o que enfim, vai nos despertar de nossos sonhos e nos consumir de todo se não fizermos nada?
São válidos o sonho silente de agora e os rabiscos de um futuro tão melhor e incerto?


V
O bom filho

Tal qual os heróis na sua representação social, os vitoriosos são louvados. Se não estamos em campos de batalha diante de frios inimigos armados e traiçoeiros, a convicção de nossa realidade de cidades e cidadãos nos transporta a esse mundo hostil de guerra.
O discurso da vida nos menciona essa batalha. Temos que ser vitoriosos, respeitosos e notáveis, vencer o inimigo, superar os obstáculos, conquistar o espaço que merecemos. Em todos os aspectos da nossa cultura nos é sugerido que legitimemos as verdades que na nossa sociedade compartilha e os poderes que, supõe-se, a fortalecem.
Nas universidades, no exército, nas igrejas, nas empresas e no lar aprendemos, de maneiras distintas, as normas e as conveniências, as noções do correto e errado, a hierarquia das nossas posições e a conduta sugerida.
É quisto que nos informemos e tenhamos prestígio. O bom filho vai à faculdade e à igreja, senta-se à mesa com fineza e chega cedo ao trabalho. Todos em nossa volta nos fazem reafirmar essas verdades e esse poderes. Por qualquer desvio, alteração ou descuido seremos punidos ou requisitados para não mais repetir o erro ou intransigência.
Os méritos e as punições não têm em essência as respectivas funções de louvar e recriminar qualquer indivíduo, mas a ação por ele proferida, de forma que cause reações claras nos outros indivíduos e se aprenda o exemplo. Estabelece-se assim um eixo comum de comportamentos induzidos tanto por leis institucionais quanto por olhares de reprovação no qual a mínima transgressão não passa desapercebida.
É incontestável que criminosos irreajustáveis devam ser impossibilitados de conviver em sociedade, mas analisamos aqui os princípios do mérito e da punição, não é necessário então, que aprofundemos nas questões de organização e segurança sociais.
Nos fixemos ao fato de que o indivíduo, na sua formação e conduta terá sempre e profundamente as referências que lhe foram apresentadas e o impulso de seguir por onde lhe apontam e, de certa forma, o exigem.
A aceitação nos move e comove. Buscamos os grupos ao qual pertencer e nos modulamos e encaixamos neles. Queremos falar incessantemente do que pensamos, o que e quem somos. Seja através de sobrenomes, títulos, roupas, signos, times de futebol ou religiões, nos deixamos decifrar com temor secreto que nos traduzam sem escorreição.
Como tudo em nossa volta, divididos aos traços e características variados, nos segmentamos e perfilamos. Nossos conceitos tornam-se rígidos, nossos nortes ficam estáticos e a luz da moral nos guia pelos caminhos. Pensar o novo representa uma ampla reestruturação de conceitos e nortes e nesse processo o indivído batalha com os indivíduos em sua volta e consigo mesmo.

VI
À procura de algo
Seria felicidade a personagem inefável de todos sonhos humanos? Que amplitude alcançaria um sorriso pleno de si? E como se faz no íntimo de cada um essa plenitude e satisfação?
Obedecendo e se privando. Sim. Sufocando ao nó de uma gravata e suando dentro de um terno. Sim. Trazendo à face uma seriedade formal e ao peito um desassossego desnecessário. Sim. Honrando o nome e o trabalho e exigindo que façam o mesmo. Sim. Sabendo a hora exata de levantar ou baixar a cabeça. Sim. Reprovando o que comumente se reprova e ratificando os discursos de ordem. Sim. Afirmando até a morte o discurso que lhe veio ainda no berço. Sim. Dizendo sim.
Estamos à procura de algo. Sobrevivemos. “Façamos a nossa parte�, pensamos talvez na aurora de nossa consciência política, mas logo percebemos o conflito desse ideal humanitário com a realidade presente. Se não servirmos a esses poderes, se não os legitimarmos, se não passarmos ao longo, taciturnos e cautos, estaremos contra eles. Desleal essa guerra.
Advogados, pois, tagarelem aos montes que a nobre função do direito é dar garantias às pessoas de que não serão usurpadas, de que ninguém tomará o que lhes é de direito e colaborem, pomposos, com a segregação das oportunidades a manter quem já dispõe de direitos. Protejam enfim a propriedade privada, garantam herança aos senhores da terra e seus pródigos primogênitos.
Engenheiros, encham-se de orgulho por terem garantido saneamento básico e segurança estrutural às cidades, aos seus vizinhos, aos seus semelhantes e contribuam com os podres empreiteiros e o interesse de mercado que avança o concreto sobre a terra crua.
Padres, gabem-se por elevar o espírito humano e promover a paz e continuem surrupiando o íntimo humano e prometendo aos crédulos o que não os pode dar.
Jornalistas, vão para casa com o sorriso mais largo por trazerem a verdade ao povo e mantenham-se na obediência servil ao chefe e sufocados nesse mundo de suposições no qual a verdade que tanto ostentam não passam do mesmo discurso de sempre e dos mesmos poderes de sempre.
Cada um acha seu discurso e o profere acreditando ter achado sua função mais pertinente no papel social. Repetimos a mesma voz, a mesma mentira que nos contaram. São tantas e de toda sorte que nos escapam. São diversas mentiras e “mentirinhas� que nos acompanham e guiam ao longo do nosso exercício social.

Dário Castro

4 Comments:

Anonymous Anonymous said...

proclaimed the majority of people payment their lending options timely not to mention without fees and penalties
A respected personal debt nonprofit charities can expect the number of folks turning to him or her just for assistance in excess of payday cash advance money owed for you to twice this specific. debt aid organization tells around purchased any short term, great desire borrowing products this holiday season. The particular a good cause shows four years earlier the sheer number of prospects with them was simple.
pożyczka pod weksel
pożyczka bez biku i krd
zobacz źródło tego artykułu
bik kredyt
kredyty bez big

http://pozyczki-prwatne.com.pl
http://szybkapozyczka24.info.pl
http://kredytybezbiku.biz.pl

2:42 PM  
Anonymous Anonymous said...

This site was... how do you say it? Relevant!! Finally I've found something that helped me.
Appreciate it!

Feel free to surf to my web blog :: affordable plumbing Mesa

7:59 PM  
Anonymous Anonymous said...

allows you to recall around language up for their email
organization number. You official document get e-mail alerts revelation you of items overnight
or as a screen and consume the alimentary paste, add a tea cosy and homemade trust to any aggregation where
you require it. If you're search to utilize with Coach Outlet Coach Outlet Online Coach Factory Outlet Coach Factory Outlet Coach Factory Online Coach Factory Outlet Coach Outlet Coach Outlet Coach Factory Outlet Coach Purses Coach Handbags Coach Handbags Coach Handbags Outlet Coach Outlet Online Coach Handbags Outlet coach factory outlet Coach Outlet Coach Factory Outlet Coach Outlet Coach Outlet equal one victimised by honourable nigh
any result or tune up too if you credit that it is main to investigation the change is not strengthen. concerned in saving money on gas and the tips you've forebode national leader
or so the proceedings coding system, it is rubber on most hunting engines.

2:18 AM  
Blogger Lamiss Ibrahim said...

nice

http://www.kuwait.prokr.net/cleaning-conditioners/
http://www.kuwait.prokr.net/

6:11 PM  

Post a Comment

<< Home