Saturday, June 04, 2005

Filosofia é coisa para criança


Malfadada e malferida, a filosofia se faz artigo de luxo e nicho, sai das bocas ditas cultas e repousa taciturna na aversão ou surpresa vil de qualquer ouvido.


Na lista de suspeitos televisão, futebol, igreja e mil outras bobagens, mas não se sabe bem quem ou o quê fez termos pela filosofia essa crescente admiração dispersa e distante e, por vezes, aversão clara e declarada.


Estamos sequiosos por prática, seja ela profissional, religiosa, social ou sexual. Sequiosos. Teoria? Chato, sem relevância. Queremos o gosto e que se dane o ômega 3 que é bom para não sei lá o quê. Somos escravos da praticidade, senhores do mesmo de sempre.


A curiosidade infante e sem limites já se foi com nosso último dente de leite. Aprendemos a andar na linha, a ter vergonha dos cadarços desamarrados e medo de tropeços. Somos gente, e gente é complicado. Tem cabeça dura e miolo mole. Gostamos do factual e o vivemos. O real é aquilo que tocamos e levamos para casa.


Pensar filosofia é coisa para criança. Nada pejorativo. Todos esses velhos carecas que repousam a face no arco da mão e forçam olhar profundo são tolos. Mestres e doutores são tolos com atestado. Reduzem à forma quista e devida o que mais sabem. “Desexplodem� em detrimento da tese.


Não percamos tempo com mais nada e ninguém. Só importa as crianças. Qualquer dia a praticidade as transforma em projetos e fórmulas. Vão ser o que o imediato exige e a “realidade� corteja. Ensinem filosofia na escola. Nada de hermenêuticas e imperativos categóricos. Nada de bigodudos loucos e barbudos idealistas. Chega do mesmo. Joguem a caverna de Platão na fossa; O deus morto de Nietzsche no lixo junto com a utopia de Moore. Tudo isso assusta mais que atrai.


Aprendamos com as crianças, discutamos coisas desmedidas, questionemos incessantemente, mas mortalmente centrados, curiosos e vivos. Pensar filosofia não é nada parecido com sonho ou devaneio, é um despertar lúcido nunca tardio. Ensinem filosofia nas escolas, deixem que a garotada aprenda bobagens em casa, essas que nos fazem amáveis e bonitos, toleráveis e normais. Chega de pose, dicionários e rodas de leitura. Ensinemos filosofia às crianças.


Onde estão os livros que não ensinam sobre o menino Jesus e a escovar os dentes? Onde estão as canções que não trazem moral vaga e o terror? “Atirei o pau no gato� é um sacrilégio e “boi da cara preta� é terrorismo puro. Medos e crenças estúpidas é o que delegamos às nossas crianças.


O pai veste o filho com a camisa do seu clube, a mãe ensina os bons modos, a avó o quer cristão e o avô o ignora por trás do jornal de ontem. A criança, por sua vez, assimila e adquire orgulhos orientados, receios impostos e verdades arcaicas e alheias. A curiosidade infantil toma novo rumo, esbarra nas coisas que todo mundo diz e gosta, e se rende à expectativa dos que estão em volta.


É um mundo novo. Admirável? Nem tanto. Mergulhamos em novidades de instruções e instrumentos tão profundamente e veloz que poderíamos desatar laços com a metafísica e os absurdos por ela provocados, mas parecemos amarrar mais firme esses laços, com a impressão cada vez mais forte que esse mundo dos aparatos e das coisas de fato paulatinamente se separa de um outro fantasmagórico, nebuloso, divino, surreal.


E vamos aos estádios, vamos às igrejas, ficamos frente à TV. Fizemos do ócio um mal e com essa idéia estapafúrdia na cabeça, nos obrigamos a ser normais sempre e marionetes nas sobras de tempo dos dias.


Ensinemos filosofia às crianças. Vai sobrar para nós.

Dário Castro

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