Thursday, June 09, 2005

A identidade do jornalista em pauta

Resposta ao texto escrito por Ricardo A. Setti no observatório da imprensa

Pior que não ver nada em lugar nenhum é ver uma só coisa em todo lugar.


Setti, em “O canto da sereia da celebridade� irroga ao jornalista a responsabilidade do espetáculo e da exaltação midiática e teme pelo dano à “imagem de austeridade e independência dos jornalistas�.


Abramos mais os olhos.


O Brasil é um país de tradição oral, dos homens de palco ou praça pública que transmitiam aos analfabetos os ocorridos do dia e os entretiam; é um país cujos atores de telenovelas são agredidos ou afagados como se o papel que interpretam nas telas fosse, pois, realidade; é o país no qual milhares de pessoas se perguntam como é possível alguém que foi dado como morto no jornal de ontem aparecer vivíssimo no dia próximo. Aqui se mistura arroz e feijão, fato e ficção, notícia e propaganda tudo no mesmo prato.


Qualquer profissional que leve a sério seu trabalho entende como aprovação deste o reconhecimento do público. Para os atores, por exemplo, os tapas e xingamentos que os possam esperar nas ruas são frutos, talvez amargos, da sua atuação impecável. O que é um erro.


Voltemos ao jornalista. Se ele torna-se célebre por meio dessa tradição de tagarelas e analfabetos que impele para outros meios com menor alcance de público os “jornalistas sérios�, devemos talvez lastimar tal realidade, mas apontar subjugando o jornalista-estrela é um equívoco.


Estaríamos assim negligenciando tanto questões mais gerais quanto interesses pessoais e contribuindo para demonizar certos indivíduos e procedimentos bem como para fermentar essa noção limitada e arcaica de um mundo de valores sólidos, imutáveis, no qual o bem e o mal lutam entre si e os indivíduos se agarram aos seus receios e noções e louvam a deuses, heróis e as tais celebridades sem que percebam que com isso falam a si mesmos e se convencem: “não tenho nada a ver com isso�.


Vivemos a era do espetáculo e este não é feito de apresentadores apenas. Há uma platéia que reprova ou aprova ao que assiste; há um espaço privado onde os shows, escolhidos por critérios de lucro, são realizados. Se formos, mesmo assim, melindrosos exigir qualquer comportamento vário de quem se apresenta no palco e esperar que ele profira suas palavras entre as vaias da maioria e o risco de perder aquele espaço para sempre, estaríamos impondo um comportamento heróico, divino ou louco que maravilha a todos, mas que ninguém depois do tal cristo o que ensejar com a mesma intensidade e comprometimento.


Enquanto as pessoas não despertarem e ninguém as incomodarem o sono bom, é melhor ser algo como Deus no céu que Cristo no crucifixo, Ana Paula.

Dário Castro

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