Sunday, June 05, 2005

Quem entender do que se trata esse conto formado por 10 sonetos ganha um brinde

OS EMBUSTES DO TOMATEIRO


I

Nestes infindáveis campos, cada retalho
Por onde as sementes se põem a germinar
É um paraíso esconso nesse imenso assoalho
Que grandiosas árvores poderá abrigar

Mas, entre arbustos, laranjeiras e pés de alho
Velhas tomaristas passeiam para incendiar
Cada raiz, cada tronco e fruto... cada galho
Para que seu tomateiro possa reinar

E sempre, para iniciar suas vastas queimadas
As velhas usam de galhas fragilizadas
Das próprias árvores que tombarão em chamas

Essas velhas ilaqueantes nunca se cansam
Mais impressionante: “Elas nunca descansam
E há milhares de anos vivem, essas damas�


II

Sobre o antigo tomateiro, a profecia
Diz que sua função sublime é a salvação
Mas quem não gostava de tomates morria
Quando vagueava pela vasta plantação

Então, permitamos uma aletologia:
“Essa profecia é grande contradição
Que sagazmente recorrendo à anagogia
Se livra do dever de apresentar razão�

Essa profecia nada mais é que desculpa
Para que essas velhas se libertem da culpa
De tanta atrocidade terem cometido

E continuem devastando, cruéis e imponentes
Todas as árvores, arbustos e sementes
E sentir por isso, orgulho descomedido!


III

É nestes infindáveis campos desgastados
Que sob o sol caminha o sábio pensador
Avistando broncos troncos carbonizados
Semeando os campos que sofrem com o calor

E suando roteja sobre os campos queimados
Olha o tomateiro e sente certo rancor
Triste, cai de joelhos, pois por todos os lados
Vê seus semelhantes em ação de louvor...

Ele corre entre esses homens impetrantes
Sacode-os, tapeia seus rostos, grita bem alto...
E na vã tentativa de acordá-los, chora

Esse homem, único ali com olhos confiantes
Fita o tomateiro e perturbado, mas cauto
Vê que é inútil confrontá-lo e vai embora


IV

“Maldita raiz�, esbraveja esse sábio homem
“Maldito fruto rubro de sabor fajuto!
Por que todos eles o veneram e comem?�
Pergunta-se então titubeando em chão abrupto

“Essas mentiras convencionais me consomem
Tanta falsidade é para mim insulto...
Pior é oferecer meus bons frutos, gritar tomem!
E ver que os homens amam esse podre fruto...

Mas não me canso, se eu sou o único acordado
Sinto o dever de servir meus pobres irmãos...
Tenho que evocar minha própria profecia!�

E reunindo tudo que havia lhe perturbado
O sábio, acertado, concluiu que em suas mãos
O destino de todos os homens jazia


V

O sábio se ergue sobre um grandioso rochedo
Grita para os homens, chama-lhes a atenção:
“Quem aqui, são e corajoso, não tem medo
De responder-me uma intrigante questão?�

“Eu�, diz um homem, “Pois eu desde muito cedo
Caçava cascavéis por entre a plantação...
Um dia, uma delas voou rumo ao meu dedo
E acabou morta na lâmina de um facão�

O sábio, após escutar o homem calmamente
Pede silêncio e diz: “Meu caro, infelizmente
Meu discurso tem venenos também fatais

Mas a dor, garanto, não irá persistir
E amigo, peço-lhe que tente resistir
Prove sua força, prove do que é capaz!�


VI

O homem se coloca à frente: “Estou preparado�
O sábio inicia: “Talvez eu que não esteja�
Senta-se no rochedo e fita o homem... calado
Ele chora (ninguém entende) e então diz: “Veja�

E aponta para o tomateiro no outro lado:
“Você conhece o sabor de uma cereja?�
“Não�, diz-lhe o homem, “Por isso está conformado
Com aquilo�, retruca o sábio e boceja

“Encosta aqui homem, já que é corajoso
E se disser que há fruto tão saboroso
Eu me exponho à tua lâmina em remissão�

E quando o homem ia pôr na sua boca o fruto
As velhas de longe percebem o tumulto
E correm infrenes de encontro à multidão


VII

Sob o olhar do homem sábio, chegam descocadas
As velhas com galhas flamejantes na mão
Gritando, sacudindo os braços denodadas
Tangem para longe do sábio a multidão

“Velho, tuas cerejas... onde são cultivadas?
Onde fica essa desprezível plantação?�
Perguntam as velhas em meio a gargalhadas
E o sábio estático, levanta-se então

E sobre o rochedo diz: “Eu sou descativo!
Bem como os saborosos frutos que cultivo
Podem me matar... meus frutos vão prosperar!�

As velhas riem e dizem: “Mas quanta indolência!
Nós te poupamos de uma trágica experiência
E tudo que tu fazes é te vangloriar?�


VIII

O sábio confuso pergunta: “Que experiência
Tão trágica é essa da qual eu fui poupado?�
As velhas perguntam ao sábio: “Tua veemência
Te fez cego e tolo, ó velho basbacado?

O homem iria tirar-te a vida sem clemência
Após de tua amarga cereja haver provado�...
“Sei, morrer assim não é sinal de prudência...�
Diz incólume o sábio... calmo, mas cansado...

“Velho, o homem comum não quer ver a verdade
Ela tem frutos amargos e venenosos...
Não quer respostas, apenas consentimento

Por isso a nossa profecia tem validade
E por isso os tomates são tão saborosos...
Não são adubados com o questionamento!�


IX

“Blasfêmia�, diz o sábio, “Nunca receberam
A oportunidade de escolha, a liberdade...
E condicionados eles sempre viveram...
Só por isso que é tão amarga a verdade!�

Fala firme o sábio dos que se acometeram
Toda a vida com sua própria ingenuidade...
Logo as velhas tomaristas o intrometeram:
“Tu és feliz, ó não cativo da maldade?

Tu sofres tu choras e estás visivelmente
Caindo aos pedaços sobre essa grande rocha!�
O sábio olha para as velhas e ironiza:

“Velhas, eu não sou homem, sou uma semente
Que caindo ao chão vira flor e desabrocha
E nesses campos desgastados se eterniza!�


X

Foi assim que o nobre sábio se fez destino...
Disse que o homem descativo é eternal
Não na forma de um homem, mas na de um ideal
E provou assim o seu caráter ladino...

As queimadas continuam de forma exicial
As velhas ainda riem correndo em desatino
E só porque o sábio dispõe de muito tino
Em sua plenitude espera rir no final

O sábio ainda vive e ainda inutilmente
Semeia os campos por onde passa silente
Lamentando sua paradoxal condição

Mas ele espera o dia em que a humanidade
Irá guiar-se pela prudência e a verdade
Como chuva fará vingar sua plantação...

Dário Castro

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