Saturday, June 04, 2005

Texto no qual pela primeira vez me apresentei como Ateu


AS FESTAS DO AMANHÃ


Já sei que irão descordar comigo no decurso deste enunciado. Estou ciente da minha condição de minoria, e não menos, da força do sentimento religioso que se agarra ao íntimo humano.


Não tenho uma religião e não gosto da conotação em torno do nome “ateu�, que as pessoas sempre falam com olhos arregalados, com expressão de espanto e desprezo ao mesmo tempo. Não sou um monstro descrente que vive no mundo sem um significado, não sou isso.


Tenho família, amo meus irmãos, meu pai e minha mãe, e sim, me comovo e gosto quando minha avó me diz: “Deus te abençoe meu filho�, mas somente por que isso faz bem a ela. Minha mãe escreve num papelzinho um verso religioso que, segundo ela, vai me proteger do perigo, e isso é muito bom desde que a conforte. Sempre que ela me diz para ir com Deus revido: “É com ele mesmo�


Não sou um ateu à toa, um adolescente parvo em busca de uma personalidade. Quem me conhece bem sabe disso, mas unicamente o fato de não acreditar no que para mim é uma resposta grosseira já me conduz à vitrine odiosa onde ficam todos os ateus.


Nem por que não sei responder certas questões instigantes eu me atenho ao sentimento religioso, e novamente, não sou uma rocha e nem tenho um coração frio... Minhas emoções se exaltam para as amizades fecundas, o relacionamento sincero, a autenticidade, para a falta de competitividade e para o surgimento de um mundo ideal onde o homem não se confunde e não confunde os outros, onde não precisamos ostentar grandeza, mas humildade, entendendo na simplicidade da nossa existência fugaz, a maravilha concebida da vida, que não se estende além daqui. Ao meu ver todos deveriam pensar assim... ao meu ver, mas que importa um ateu?


Mas lembre que eu também sou um filho de Deus...


Para mim a razão fenomenológica deveria soar mais alto que a parvoíce religiosa. Eu não imagino um mundo árido de virtudes com o fim da religião, vejo antes a possibilidade de olharmos para nós mesmos, nos entendermos com toda simplicidade possível, simplicidade essa, louvada pela sinceridade e autenticidades dos motivos.


Imagino um amanhã com imensos festins onde todos irão para somarem-se conhecimento e discutir não verdades duvidosas e dadivosas, mas os caminhos para a comunidade perfeita, sem o culto do além e a aversão à morte, sem culpas e pecados... grandes ambientes onde as pessoas irão reverenciar a si próprias em pé, e nenhuma sequer ficará de joelhos, onde as crianças não serão educadas com medo de errar ou se constranger, com dogmas ou mitos mentirosos, mas com a benéfica simplicidade de todas as coisas! Imagino um amanhã onde os valores não se reduzam a uma grande farsa, onde as virtudes sejam algo mais que um esforço diário, sejam uma realidade! Imagino um amanhã do qual não presenciarei a alvorada.


Definitivamente me julgo melhor que muitas pessoas, assim como muitas pessoas se julgam melhores do que eu... me despeço então nessa impassibilidade e vou continuar meu destino, crendo em mim mesmo e esperando que os outros também o façam, e quem sabe um dia nossos filhos não irão se encontrar nessas festas do futuro, se entenderem e se tornarem tão melhores do que nós?Somente isso me conforta, a esperança lúcida que se agarra ao meu íntimo.

Dário Castro

1 Comments:

Blogger Martina said...

Oi, Dário !
Adorei o texto. Eu não sei se sou atéia, porque não sei ainda hoje o que é Deus. Penso que Deus é uma criação da imaginação do ser humano, e indica-lo como o criador de tudo aquilo que o homem não tem a capacidade de compreensão.
Eu cresci frequentando um centro espirita (minha mãe levava eu e meu irmão ainda criança), e por uns dois anos (recentes) frequentei as missas da igreja católica, semana passada fui a um culto evangélico; pra mim o que Deus fez acontecer, é exatamente a fé, a frequencia de pensamento das pessoas, isso eu acredito.
Me compreendes?`
É isso aí, não sei se me entendeste.
Beijão;)

1:41 PM  

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