Wednesday, July 20, 2005

As malditas mesas de vidro

Curiosa a festividade dos que se dizem puros e bons. À mesa, mil rostos redondos e sorrisos largos enfeitam os gestos mecânicos e as frases moldadas pela tradição e a conveniência.

Eles gargalham e suam aos montes. Falam do que devem e ouvem o quanto podem até que só lhes reste o semblante atencioso voltado ao outro enquanto pensam em qualquer outra coisa.

São ótimas e polidas pessoas. Puxam as cadeiras para as mulheres e nunca avançam no último pedaço de carne sobre o prato. Quanto de nossos receios sociais não estão naquele último pedaço de carne!

“Puros� e “bons� são apenas adjetivos que soam puros e bons. São palavras. Não somos assim. Somos dissimulados, desinteressados, receosos, assustados, fracos e potencialmente furiosos.

Sob a mesa, os sapatos fora dos pés e as meias furadas e fedidas são o que nos resta de autenticidade. Que desconforto as malditas mesas de vidro! Translúcidas não nos deixam deleitarmos com o íntimo de nós mesmos. Nem mesmo quando estamos com a face respeitosa bem posta sobre serena gravata.

Que seria de nós se fossem assim translúcidos os nossos gestos, os nossos desejos e toda aquela conversa saudosa e fiada que nos sai da boca?


Dário Castro

1 Comments:

Blogger johnsmith6794 said...

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2:06 PM  

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