Monday, July 18, 2005

Odre de carvalho

“Bem-vindo ao meu recanto�, disse aquela figura tosca com olhos de curiosas pupilas. Estendi a mão com cautela e esmero pavor do monstrengo que me aceitava em seu lar. Tomei suas palavras em odre de carvalho até que por sensatez, ou por não me restar alternativa vária, eu lhe devolvi o orbe objeto vazio.

“Enche-o para mim com as palavras que tu trouxeste�, pediu. Será amargo para tal criatura o que trago e tenho costume de oferecer aos outros? Repensei e ainda não sabia se me apetecia o que ele havia me servido. Decerto não me causou fastio.

Seus goles eram ávidos e sequiosos. O monstro me tomou a garrafa e a bebeu. Limpou a boca com as costas da mão e lacrimejando e tossindo balbuciou palavras incompreensíveis. As repetiu, quando pôde, para que eu entendesse. Falava de remorsos e fúria com sabor de remédio e corpo víneo. Não havia nada disso naquele odre. Falava de solidão e esperançosa virtude, mas se equivocava quando identificava algo de amargo e vaporoso. O que o teria confundido? Os resquícios das suas próprias idéias que ficaram no recipiente? Teria o a essência do carvalho impregnado o líquido verborrágico?

Demorou para que eu entendesse o que de fato havia acontecido. E não foi naquele dia. Saí de lá com um saco de perguntas debaixo do braço e um olhar vago e vagaroso. “Maldito monstro!�, pensava eu. “A língua asquerosa não entendeu ao certo do que se tratava aquilo que sorvia. O estômago das trevas ou pântanos rejeitava o sabor puro das minhas palavras�.

Hoje, menos consternado, tenho mais uma certeza para guardar comigo e mostrar a quem me queira ouvir. Estava inebriado de minhas próprias palavras a ponto de imaginar tal monstro no rosto de um qualquer que me acolheu em seu recanto.

O medo que senti da sua feição e trejeito caíram sobre o odre e o apodreceram. E talvez esse encontro não se deu além da minha imaginação, onde me encontro e me perco; onde me faço destroços de palavras e devaneio de mim mesmo.


Dário Castro

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